domingo, 16 de setembro de 2012

Olhos negros de setembro



Hoje foi a última vez que vi seus olhos. E isso é estranho, porque ainda me lembro da primeira vez que me perdi neles e desejei que se eternizassem no meu olhar. Mas ontem, quando me abraçou, busquei em seus olhos negros encontrar o brilho dos meus. Não encontrei. Fiquei perdida no vazio do seu olhar. Um olhar que fez estremecer até minha alma. Tive a impressão de que estava se afastando de mim.  E você desviou o olhar do meu. Foi então que suas palavras me atingiram com um golpe que me levou ao chão. Fiquei sentada enquanto elas ecoavam no silêncio do seu olhar fixo em algum lugar distante de mim. “Nada mais é eterno. O amor, a amizade. Adeus”.  E isso doeu.

É uma tarde sufocante de setembro. Sufocada pelo calor e eu sendo sufocada pelas palavras que não pude dizer. Antes de partir, perguntei se por acaso se lembrava de setembro. “No meio de setembro, nós ainda brincávamos na chuva...”, ele disse. Sim, ele se lembrava de nossa infância. O amor, a amizade. Fechei os olhos e as lágrimas se encarregaram de lavar todas as lembranças. O eterno se perdeu quando me perdi do seu olhar. Acho que o eterno se desfez em lágrimas. 

Fiquei encostada na porta enquanto suspirava ao vê-lo se afastar. Sentei e abracei-me. Confesso que não entendi o porquê de seu afastamento, mas deixei que fosse. Perdi meu lugar seguro. Você levou a minha paz. E deixou a saudade. Você levou mais do que deixou e isso não é justo.

Mas, tudo bem. Pode ir. Vá e me deixe aqui com o tempo. Eu só preciso me acostumar com a sua ausência. Eu só preciso aceitar que o eterno já não existe para nós. Preciso entender que já não existe nós. Vou guardar as lembranças de tudo o que foi e de tudo o que poderia ter sido. Vou ficar com a saudade do que vivemos e de tudo o que nunca aconteceu. E não, não olhe para trás. Não me olhe com esses olhos em que me vi durante tanto tempo. As esperanças não são boa companhia para a saudade.

Agora vejo, cada vez mais longe, o menino dos olhos negros. Agora sinto, cada vez mais dentro, o vazio que deixou. Agora ouço, cada vez mais sussurrada, a voz que dizia que me amava. Agora, já não sei de nada. Agora, já não sou.

Mas voltarei a ser. Vou me encontrar de novo. Dessa vez, no meu próprio olhar.

E o eterno se perdeu no meio de setembro. 


*Este "adeus" pertence a Laís Oliveira (@LaisOpS). Ela me emprestou a história, que também é um pouco minha, para que eu lhe desse as palavras. 

8 comentários:

  1. Não sou tão boa com as palavras quanto você Dani, mas gostaria de deixar aqui meu muito obrigada, por tornar belo até o que é triste (como você me disse).
    Eu realmente gosto da forma como você escreve, é muito verdadeiro e posso ver, sentir e até mesmo estar em cada cena descrita, de todos os seus textos.
    Muito antes de nos falarmos, me via em suas palavras e fazia deste blog, um refúgio. Aqui eu encontrava o que eu não sabia como explicar em mim. Eu ME encontrava. Me encontro.
    Creio que muitas pessoas também podem sentir isso, de alguma forma, e se identificar com esse ou qualquer outro texto. Ou não. Podem simplesmente amá-los.
    Suas palavras foram capazes de nos aproximar, mesmo a quilômetros de distância, falaram por mim. Por tudo.
    Quero dizer, enfim, que sou grata. Por me ouvir, por se preocupar, mesmo tão longe. E por ter feito algo tão bonito. Posso não conhece-la pessoalmente, mas o carinho e a amizade que sinto por você 'desconhecem a distância.'

    Beijos <3
    Laís

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    1. Sabe, uma das coisas que mais me deixam feliz é quando me dizem que se identificam com o que escrevo. Acho que isso ameniza um pouco minhas dores, meus dramas, me faz ver que não sou a única que sente o que descrevo e isso me conforta.
      Acho que nos parecemos, de certa forma, Laís. As poucas conversas me mostraram isso. E as coincidências, então, nem se fale.
      A recíproca deste sentimento é verdadeira.
      Como eu disse, essa história é, em partes, minha também.
      Sim, ainda bem que as palavras desconhecem a distância.

      Beijo!

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  2. Imagine uma joia. Lapidada. Rara. Lá no fundo do mar. Ok, tiremos a parte do mar e coloquemos essa joia na terra. Uma terrinha distante. Uma joia com caracteristicas unicas e diferente do que vemos.

    Um rapaz a encontrou. Não tenho noção da dificuldade que ele teve. Ou se teve dificuldade. Mas ele encontrou e a levou. Cuidou dela. A poliu. A teve nas mãos e nos braços. No coração e no armário, entre um porta-retrato e outro. A amou por um tempo e fez juras de paixão ao seu intenso brilho.

    O tempo passou. Com ele veio o descuido e o esquecimento. O desprendimento, também. Acabou até se tocando que ele não era colecionador e estaria sendo egoista tendo consigo um artefato tão raro e que outros apreciadores poderiam estar a sua procura e ele estaria impedindo não só a felicidade dele como também daquela joia.

    A menina desses textos é essa joia.

    Quem um dia a encontrou a colocou de volta no seu lugar. Frio, é verdade. A impediu da verdadeira reciprocidade do seu devido valor. Esqueceu do preciosismo daquela joia. Mas a deixou. Porém para outros apreciadores. Ela precisa acreditar nisso.

    Essa joia não tem noção do tamanho do seu valor. Mas um dia vai ter.

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    1. Tiago, você sempre consegue me deixar sem palavras, com seus textos e, principalmente, com seus comentários. Chorei. Você é mesmo um amor. Obrigada, de coração.

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  3. Nunca havia lido algo tão profundo quanto isso: "Acho que o eterno se desfez em lágrimas". Que história triste e linda ao mesmo tempo. Eu, de certa forma, entendo essas duas meninas. Pior do que a dor do FIM, só a sensação de algo inacabado... Sempre tive medo de perder sem saber o porquê. Esses afastamentos sem motivo (aparente) são cruéis. Mais cruéis do que explicações dolorosas, pois a esperança de uma possível volta fica. A esperança permanece quando não há ponto final e assim fica difícil esquecer. =[
    Desejo força para essas duas meninas que, de certa forma, protagonizam a história. Desejo principalmente paz.
    Beijo grande e carinhoso ;*

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  4. Depois de ler o comentário do Thiago eu nem sei mais o que comentar,o texto é lindo,profundo e triste,é poético,por empatia me coloquei no lugar dessa pessoa e pude sentir meu coração sendo apertado por essa angústia provocada por esse adeus.

    Essa é a primeira vez de muitas vezes em que pretendo passar por aqui. Parabéns pelo blog. É disso que eu gosto,de gente que ignora os dedos e escreve com a alma!

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